Os fantasmas do Caldeirão

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Por Mariana Albanese

Há 17 anos que Seu Raimundo e Dona Maria, sua esposa, moram no terreno do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto. O local, distante cerca de 40 quilômetros do centro do Crato, fica entre os distritos de Santa Fé e Sítio Brea e foi palco do massacre de aproximadamente mil pessoas em 1937. O ataque foi promovido pelo Governo Federal para acabar com uma comunidade igualitária que lá se formava em torno do Beato José Lourenço. Uma espécie de revival de Canudos, agora pelo ar, e no Ceará.

Há seis anos, quando fui ao Caldeirão pela primeira vez, o casal precisava caminhar 9 quilômetros para chegar ao transporte público. Ontem, quando voltei rapidamente ao local, descobri que o isolamento continua. Mas me pareceu pior. Afinal, quando estive lá, em março de 2007, era inverno nordestino: tudo lindamente verde, água farta, terra batida. Agora, a poeira levanta. O calor não dá trégua e a água começa a secar. O caminho me pareceu mais longo.

Dona Maria e Seu Raimundo parecem ter sido congelados na fotografia que tirei há anos. O mesmo rosto marcado pelo tempo, a mesma disposição.

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Seu Raimundo, guardião do Caldeirão da Santa Cruz, em foto de 2013

Já o Caldeirão, está mudado. O casal agora vive em uma nova casa de tijolo. Deixaram a anterior, que ao lado da igreja, forma o par das únicas edificações que restaram do bombardeio. Feita de pau a pique, era usada como espaço de oração pelos fiéis moradores locais. Como não foi utilizada como museu, está agora ocupada por uma sobrinha deles.
Ao lado da igreja, seu Raimundo carpiu o terreno e agora estão visíveis as cruzes e as ruínas de um muro, pertencentes a um pequeno cemitério, ainda do auge da fazenda. Lá eram enterradas crianças (ou “anjos”, como chamam) que não “se criavam”.

O guardião do tesouro me conta, com poucos dentes e muita indignação, sobre o prédio do museu, ainda sem utilização, onde o último prefeito teria gasto R$ 320 mil em sua construção, visivelmente simples. Vazio, só tem “exposição de casa de aranha”, como explicou sua esposa.
(A visita que fiz foi exatamente acompanhando a equipe da atual gestão da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Crato, que gere o espaço. Estão mapeando o terreno e têm pressa para desenvolver um projeto de revitalização local).

A Igreja e a terra
Ouvi algumas histórias, que preciso apurar direito. Mas todas envolvem o poder que a Igreja, especialmente os Salesianos, sempre tiveram por lá. Dando carona para Dona Maria, perguntei de quem eram os bois da estrada. Eram do “padre”. Ela, embora católica e devota, não parece ter as melhores lembranças dos religiosos que, segundo me relatou, comentam pela região que o terreno do Caldeirão – hoje da prefeitura – ainda é terra em “poder” deles. A valente mulher que andaria mais 5 quilômetros sob o sol até a casa do filho em um assentamento de sem-terras (pegou carona com a gente até metade do caminho), ainda me falou do tempo em que 100 famílias tentaram ocupar novamente o Caldeirão, e foram retiradas pela Igreja. Ela e seu Raimundo ficaram, e acabaram criticados pelo resto do grupo.

Dona Maria, em 2007. Está idêntica!

Dona Maria, em 2007. Está idêntica!

Você tem medo de quê?
Olhar aquele terreno ermo, imaginando que ali sucumbiram famílias inteiras, que compartilhavam juntas o sonho da liberdade dos coronéis, me despertou a dúvida fatal, que foi respondida por seu Raimundo em um átimo de segundo:

– E aqui tem fantasmas?
– É só o que tem.

Me contou, então, dos constantes choros de crianças. Do barulho de homens carpindo o terreno atrás de sua casa. E, principalmente, do dia em que uma grande bola de luz partiu das ruínas da casa do beato, no alto da estrada, e foi para o outro lado.
Segundo seu relato, é como se as pessoas continuassem a viver suas vidas como antes, inclusive nos horários habituais: muito do que ele conta ter observado foi durante o dia.

Cemitério de anjos

Cemitério de anjos

Pergunto se já conseguiu conversar com algum deles: “é muito rápido, quando vejo, já foram”.
Difícil desconfiar de alguém tão sério, principalmente porque o faz com a calma de quem vê um vizinho de anos: “Eles não vão me fazer nada. A gente tem é que ter medo de gente viva”. Em seguida, conta de alguns homens mal encarados que tentaram levar embora o gerador elétrico do futuro museu.

Em meio a uma conversa pelo árido caminho que dá acesso ao grande poço que dá nome ao Caldeirão, vem a sentença de sabedoria. “O Samuel [Araripe, ex-prefeito responsável pelas obras no terreno] é rico, mas eu sou muito mais. Ele tem dinheiro. Eu tenho isso aqui tudo: a graça de Deus”.

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