Dona Preta do Sítio Piripiri

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Por Mariana Albanese

Os últimos dias têm sido de reencontros extraordinários com pessoas que pensei que nunca mais veria. E Dona Preta com certeza está no topo da lista imaginária do que parecia impossível.
Benzedeira, contadora de “histórias de trancoso”, esta senhora é um museu vivo. A conheci em 2007, em sua casa no Sítio* Piripiri, durante uma gravação realizada pela equipe do Sesc Crato. Era a segunda tentativa do grupo de conversar com ela. Na primeira, a senhora de 80 anos tinha ido visitar a mãe, que passava dos 100. Foi a pé pelos quilômetros da estrada, e se atrasou.

Encontramos por lá uma mulher idosa, mas cheia de vida. Vivia sozinha com um filho, ambos indo para a roça diariamente. Dona Preta nos relatou detalhadamente como a chegada da luz elétrica estava espantando os curupiras que viviam no mato e de vez em quando se aboletavam na cerca. Sua casa, de taipa, ainda não tinha sido beneficiada pelo Luz para Todos, e visitar aquele recanto foi uma forma de fazer o impossível, já que viajar no tempo ainda não é viável, mas nós o fizemos.

Dona Preta em 2007

Dona Preta em 2007

Fogão à lenha, cigarro de palha, nenhuma outra casa à vista, histórias de “doutô Froro” (Floro Bartolomeu, braço direito de Padre Cícero), que resolvia as brigas da seguinte forma: disse que o vizinho roubou sua galinha? Ele mandava surrar o vizinho. Achou a galinha? Agora quem leva surra é você.

Esse primeiro encontro se passou há quase seis anos. De volta ao Cariri para realizar o mapeamento do turismo cultural por aqui, segui os passos do pessoal da Secretaria de Cultura do Crato, e fui parar na Terreirada do Mestre Cirilo, no Sítio Bela Vista. Para entender como este homem é fantástico, basta dizer que mantém um grupo adulto e outro infantil de maneiro pau, planta uma roça imensa no quintal, vai de bicicleta até o centro do Crato (devem ser uns 10 quilômetros só de estada de terra), tem uma estátua de um Teletubie na sala de jantar e foi quem nos apresentou Dona Preta, amiga de sua família.

Dona Preta, 2013

Dona Preta, 2013

Pois não só a revi na última quinta-feira, como cegueta que sou, a reconheci num vulto, de braços com o Mestre Cirilo, que a acompanhava para dentro de sua casa. E então, pobre senhora. A abracei, a segui até a cozinha e a enchi de perguntas, coisa só comparável ao dia em que conversei com um índio do Oiapoque numa piscina em Salvador (e ele me contou que o Brasil não vai até lá, e sim até o Monte Caburaí, em Roraima).

Felicidade em saber que ela lembrava de mim. “De vez em quando aparecem umas pessoas como você”, me contou, querendo dizer – entendi depois – que iam lá entrevistá-la.
Conversamos muito, mas não como velhas amigas, porque ela é muito mais diva que eu, e não conseguia esconder meu embasbacamento (a ponto de virar atração turística para as mulheres da família do Mestre, que achavam graça na minha curiosidade). E o filho dela, como estava? Ainda com problemas? E sua mãe? E a roça?

Soube que o rapaz se curou do vício do alcoolismo e agora começou a benzer junto com ela. É um dos 18 filhos que Dona Preta teve, dos quais 15 “se criaram”. O marido morreu jovem, e ela nunca mais quis casar. Conta com um indisfarçável sorriso que até hoje, aos 86 anos, ainda recebe convites para o matrimônio, e apesar de gostar de sair para um forró (embora as pernas “duras” já não a deixem mais ter o gingado de seus 70 e poucos anos), prefere continuar sozinha.
Sozinha também está se sentindo após a morte de sua mãe, em 2011. Dona Preta garante que a senhora morreu lúcida “e de uma vez”, no alto de seus 125 anos. Na hora em que relembrou a perda, marejou os olhos: “ela me fazia uma companhia tão grande!”.

Cigarro de palha na boca, ela me pergunta se já trabalhei na roça. Digo que nunca. Ela ri. Alguém passa e pergunta de qual santo ela é devota. Ouvimos como resposta um “não há santo que eu não goste nesse mundo”.
Digo que em breve irei à sua casa novamente e recebo um dos convites mais gratificantes desses meus 31 anos de existência: “Vai lá, que te ensino a benzer. Assim você pode sair pelo mundo fazendo bem para as pessoas”.
Por lá, talvez não encontre mais os curupiras. A luz elétrica chegou, e com ela, talvez o começo do fim da magia.

*Tecla SAP para quem não é entendido de sertão: sítios são comunidades rurais distantes, e não necessariamente pequenos pedaços de terra particulares. Se alguém diz que mora em um “sítio”, pode ter certeza: é longe do centro.

Abaixo, registros de nosso primeiro encontro, em 2007.

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