Eles ainda sabem vadiar…

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Por Mariana Albanese

Cultura popular é um campo tenebroso para algumas pessoas. Se perguntadas, dirão que as tradições precisam ser mantidas. Mas em uma zona urbana, poucas se habilitam a sair de casa para ver uma apresentação de maneiro pau, reisado ou qualquer que seja, salvo talvez em regiões específicas, como Pernambuco, que conseguiu alavancar o turismo incentivando exatamente a existência do que corria risco de desaparecer (com destaque para o maracatu), sofremos de preguiça crônica para a arte tradicional.

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E me incluo na lista, por isso o “sofremos”. Sou alucinada (não há outra palavra) pelos mestres de cultura. Acho divina a sabedoria deles, a capacidade de levarem adiante brincadeiras que competem com games, novelas e o que estiver ao alcance dos olhos. São tesouros vivos, e ver suas apresentações em determinados ambientes, como tem acontecido nas terreiradas promovidas pela Secretaria de Cultura do Crato, é como tentar encontrar a chave para algo que se perdeu. Onde está a inocência? A beleza? A dedicação e o respeito aos mais velhos?

Dito isso, tenho que concordar que, com a mudança dos tempos, a velocidade de percepção mudou também. Não é justo assistir a uma apresentação só porque é preciso prestigiar algo “sagrado”. Na música, há quem misture “Miami com Copacabana” já faz um tempo. Eletrônico com rabeca, samba com hip hop. Mas como manter uma tradição, sem descaracterizá-la?

A mestra Mazé de Luna, do Reisado Decolores, do bairro Muriti, no Crato, parece ter encontrado a fórmula perfeita. O grupo  que ela “herdou” do pai, o renomado mestre Dedé de Luna, já falecido, se atualizou. É dinâmico, bem ensaiado, bem trajado e até didático, mas na medida certa.
Tem uma característica interessante: a maior parte de seus integrantes é de mulheres, incluindo aí a Mestra e as duas vozes do coro. Um diferencial e tanto.

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Reisado Decolores na terreirada do Mestre Cirilo – Bela Vista (Crato)

Também recupera duas figuras que não tenho visto nos reisados da região: a Sereia e a Catirina, mulher do Mateus. Aliás, o casal de palhaços (são dois pares), protagoniza cenas hilárias. Enquanto no reisado mais tradicional há a figura do Mateus beirando à insanidade, o doido que geralmente (nos mais adultos e antigos) vai para a brincadeira já bem encachaçado, os do Decolores, talvez também pelo ambiente em que se apresentavam (em frente à casa do Mestre Cirilo, do Maneiro Pau da Bela Vista), tinham uma participação mais tranquila, teatral e cômica.

reisado-decolores-8O Decolores poderia ilustrar um verbete sobre espetáculo. Quem viu a apresentação do grupo na terreirada do Mestre Cirilo, a empolgação e a torcida de uma comunidade ainda rural, mas que sofre as más influências dos grandes centros (a começar pelo alcoolismo em jovens), entendeu não só o poder transformador da arte, mas também o potencial que ela tem para se atualizar e continuar a encantar gerações. Assim como o Jaraguá, eles ainda sabem vadiar.

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