Potengi, o fantástico mundo de Bob

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Cheguei em Potengi no começo da tarde de uma segunda-feira e imaginei que o lugar havia sido evacuado. Quase ninguém na rua. No largo da igreja, sequer uma alma.
Em um golpe de olhar, já havia conhecido quase tudo da região central da pequenina cidade de 10 mil e poucos habitantes, distante 90 quilômetros do Crato.
As primeiras impressões tinham sido dignas de Dias Gomes. Ao chegar ao hotel mais próximo do centro, fui questionada pela atendente:

– Você vai ficar aqui?
– Vou, por que, é muito ruim?
– É sim.

(Ela me sugeriu a pousada do mesmo administrador, um pouco mais distante, mas de boa qualidade).
A segunda descoberta foi que em Potengi não pega TIM. Resultado: enquanto não conseguia localizar meu guia local, o Secretário de Cultura Jefferson Gonçalves de Lima, mais conhecido como Jefferson Bob, parei para tomar uma cajuína em uma lanchonete simpática. Sozinha no espaço, perguntei à menina no balcão:

– O maior movimento aqui é e noite?
– Movimento? Não, nunca tem não…

Ótimo. Ao menos ela sabia onde ficava o museu de seu Françuli, o “inventor do sertão” – nova celebridade local da criatividade caririense. Fui até lá, mas não o encontrei. O espaço era interessante, mas como comprovei depois, muito mais iluminado com a presença do dono.
Saí meio sem expectativas, perdida pela rua, quando o Bob me “achou”. Dali em diante, tive a surpreendente experiência de descobrir uma cidade encantada, que tem neste “filho natural” um guardião cuidadoso.

Foram três dias rodando por Potengi, e talvez leve um ano para absorver todas as experiências que tive neste curto período. Poucas delas podem ser encaixadas em um roteiro habitual de viagem, como o Viaje na Chapada propõe. Afinal, como colocar a casa de Maria Piauí, rezadeira de fama nacional, como destino turístico? Não que ela não receba mais gente que muito museu: tem até horário de atendimento fixado na porta. Mas digamos que é polêmico…

Já Mestre Antônio, do Reisado de Caretas, único do tipo no Cariri, tem até ponto para check-in no Facebook. Invenção de Bob, que de militante incansável da cultura local, chega a brincar com o grupo quando falta um integrante.

E a casa de uma pacata família, na beira do Açude Pau Preto? Destino? Sim! Típica casa-grande do sertão nordestino, de paredes grossas e varandas amplas, foi inaugurada com show de Luiz Gonzaga, amigo de Marabrão, apelido de Mário Abraão, fazendeiro conhecido por toda região e… avô de Bob. Estuda-se um esquema de hospedagem domiciliar para a casa onde o tempo parece não ter passado, mas onde se passa o tempo na rápida conexão wi-fi.

Prestes a se tornar um pontinho no Foursquare está o Quilombo Carcará, uma das tantas cerejas do bolo local. Tal qual a maior parte dos quilombolas, os de Potengi relutaram em se afirmar como tal. Medo de perderem suas terras, medo de tudo o que ficou de lembrança nos genes lutadores. Aos poucos, foram gostando da ideia e revelando as histórias passadas. Hoje, a pacata comunidade na zona rural da cidade rural se prepara para ganhar a estrada com seus dois grupos culturais: Forró de Quilombo (banda de pife dos homens) e Toré (dança popular das mulheres), mas também para receber visitantes – o que já acontece timidamente.
Fui embora de lá muda. Nunca vi uma felicidade tão genuína e tão pouco clichê. No caminho entre o Sassaré – onde mora o Mestre Antônio dos Caretas – e o Carcará, estão as pessoas mais em paz que já conheci.

Paz não é exatamente o que os famosos ferreiros, que dão o tom do “tuntuntum” matinal à cidade, devem ter dentro da cabeça. Com o ferro em brasa, trabalham em duplas que mais parecem bonequinhos de relógios “Cucos”, martelando de forma sincronizada o material incandescente que aos poucos de torna uma ferramenta agrícola.
Em breve, umas das oficinas de ferreiros virará museu. A iniciativa? Do pai de Bob.

Houve ainda tempo de voltar ao museu ”A Invenção do Sertão” para conhecer a genialidade maluca de Seu Françuli, o homem que, para acalmar os problemas de “nervo”, precisava subir em árvores. Acabou desenvolvendo pequenas invenções que culminaram com aeromodelos, aviões, helicópteros que ele faz voar. Assim como voa em sonho, todas as noites.
Dia desses, sonhou que tinha “umas asas curtinhas” e sobrevoava a região. Não à toa, seu toque de celular é canto de pássaros. Parecido com o de… Bob, apreciador de pássaros, espécie de “João Gibão” local, vereador e vidente de asas da Saramandaia de Dias Gomes. A essa atura já dá para imaginar: foi Bob quem ajudou seu Françuli a montar o museu.

Curiosamente, tudo o que o secretário quer é que quilombo, reisado, museu, e tudo mais, se desenvolvam sozinhos. Por isso, tem inscrito todo mundo em projetos de bolsas. Mestre Antônio e Dona Zefinha, rendeira de bilro, já foram contemplados. Ao receberem o título de “Tesouro Vivo da Cultura”, passaram a receber bolsas vitalícias do Governo do Ceará, para desenvolverem sua arte.
Talvez hora dessas Bob bata asas para longe, e os personagens de seu fantástico mundo precisarão escrever seu próprio roteiro.

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