Quilombo Carcará e a estrada mágica de Potengi

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Quilombo Carcará: vida tranquila no lugar chamado de “favela” pelos vizinhos

Perdida na imensidão da cidade quase desabitada (quando cheguei, pensei que todo mundo tinha fugido), aguardava instruções de meu destino. “Vamos na casa do mestre Antônio, e depois ao Quilombo Carcará”, informou meu guia honorário, piloto e Secretário de Cultura de Potengi, Jefferson Bob.

O caminho entre o centro e a região do Carcará é todo feito em estrada de terra (carroçal), excetuando o pequeno pedaço de asfalto da CE-292, quando passamos pelas oficinas dos famosos ferreiros de Potengi e seu tuntum que vara a madrugada e vai até a metade do dia.

Dali a uns três quilômetros comendo terra, depois de superar um lixão que dá à estrada a surreal impressão de ser uma plantação de sacolas plásticas, chegamos no Sassaré, sítio (região da zona rural, e não propriedade particular) de nome digno de conto de fadas e que abriga o mais mágico dos grupos se tradição popular que já vi, o Reisado de Caretas de Potengi.

Reisado Caretas de Potengi - Chapada do Araripe - Ceará (2)

Mestre Antônio

A casa de Mestre Antônio é uma atração turística. Tem até check-in no Facebook. Obra de Bob, que trabalha incansavelmente pelo desenvolvimento cultural local, muito antes de ter um cargo público.
Foi ele quem inscreveu o Mestre no edital do Governo do Estado, que por sua vez reconheceu seu trabalho e lhe concedeu uma bolsa vitalícia como Tesouro Vivo da Cultura Cearense. (Dona Zefinha, rendeira de bilro de Potengi também foi beneficiada em 2013).

Além de bancar as despesas com o grupo – de viagens a vestimentas -, o dinheiro ajudou a melhorar a casa, ainda agora muito simples, e a comprar uma moto para ir à cidade. E foi com a moto do mestre que rodamos as infinitas estradas que levam aos segredos locais.

Na residência onde vive com a esposa, sem filhos, o tesouro fica no alto: nas caixas de papelão estão as máscaras que tanto assustam as crianças, terror da infância de muita gente.
Triste, porém, é saber da dificuldade de manter o grupo unido, já que mortes e mudanças acabam por esvaziar o número de brincantes. Tão pior é não ter mais quem faça as máscaras.

Caminho do quilombo
A estrofe “Carcará, pega, mata e come”, martelava na minha cabeça no trajeto fascinantemente lunar para o quilombo da minúscula cidade do sertão caririense. Mania a minha, que sempre penso em letras de música.
Mas o devaneio foi cortado pela realidade: por uma questão que ainda não está solucionada, já que nunca tinha acontecido e não se repetiu em nenhuma outra cidade, eu esquecia minhas coisas em cada lugar que eu ia.

Sol se despedindo na estrada para o Carcará

Sol se despedindo na estrada para o Carcará

Seja como for, o fato é que no meio da estrada descobri que minha câmera ficou sobre a mesinha da casa do Mestre Antônio e fui para o quilombo apenas com meu celular. A noite chegava rápido e depois de sol se despedir, tudo seria só um esboço de pixels. Mas ainda deu tempo de alguns toscos registros.

A região do Carcará é dividida em duas. Uma “branca” e outra “negra”. Advinha qual é chamada de favela?
Pois é.
Por essa e por algumas outras questões, incluindo um medo secular de serem “descobertos”, a “ala” negra do Carcará – que nada tem a ver com uma favela -, por muitos anos negou qualquer ascendência escrava.

Foi aos poucos que a consciência étnica foi sendo incorporada ao grupo. Conversas com outros líderes comunitários, experiências de quilombos próximos, como o da Lagoa dos Crioulos, em Salitre, foram despertando não só o orgulho racial, como a memória cultural. Algo do tipo: “Nós fazemos parte de um todo! Uma cultura ancestral riquíssima…”.

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Dona Bizunga e o Toré

As mulheres voltaram a dançar o Toré, herança da miscigenação indígena. Já não se lembravam mais. As mais velhas precisaram ensinar para as (nem tão) novas, já que há muito não se falava mais do assunto.

Os homens reorganizaram a banda de pife, mas tiveram uma baixa na zabumba: Sebastião, o consciente líder comunitário, capaz de emocionar com seu discurso sobre a descoberta e valorização da cultura negra do Carcará, converteu-se em evangélico. O pastor não aceita que participem de nenhuma manifestação cultural de origem negra. A sugestão é para que os moradores deixem a zabumba e optem, por exemplo, pelo violoncelo.

No meio disso, a incrível dona Bizunga (apelido de Antônia Carvalho)e as demais mulheres que informalmente ela lidera, reaprenderam a fazer potes de barro com uma artesã de Missão Velha, Corrinha, do Ateliê Mão na Massa, em uma interação entre o territórios da Chapada do Araripe / Geopark Araripe. A técnica havia sido esquecida e para cozinhar – o fogão a lenha ainda é a única opção – compravam o produto pronto.

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Celebração noturna no quilombo

Para minha triste felicidade a noite terminou em música, e até Sebastião entrou na roda – contou que a restrição religiosa é para apresentações em público. Música de quilombo, sob o mais extraordinário céu que há, e eu sem ter como registrar aquele encontro.

O povo que há mais de um século fugiu ou foi libertado da Casa do Infincado, residência do Barão de Aquiraz na cidade vizinha de Assaré, não conseguiu sua alforria: “Não somos mais escravos, mas ainda não conseguimos nossa liberdade definitiva, já que a gente não tem terra para plantar e precisa trabalhar na terra dos outros, deixando uma parte da produção para o dono”.

A missão, agora, é ter as terras no entorno desapropriadas, reconhecendo assim o território quilombola, um passo além do reconhecimento como remanescentes de quilombo.

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